INFELIZMENTE, O POBRE DE DIREITA
A direita e, ultimamente, a extrema direita com mais força no Brasil, porque sabe lidar com as mídias sociais melhor do que ninguém, vêm propagando um discurso temerário do ponto de vista da violação de direitos, que o pobre, morador de comunidade, tem internalizado como seu princípio.
A geração Z, nascida entre 1995 e 2010, é apontada como a que mais lê, porém isso não configura que seja a que está mais apropriada dos fundamentos dos reais problemas que o Brasil enfrenta. A elite brasileira sequestra o orçamento e também sequestra as ideias, porque detém a força dos meios de comunicação e das estruturas sociais para a alienação do povo. Ler de forma superficial, informar-se por meio do TikTok ou do Instagram não significa estar bem informado, e é aí que as “elites do atraso” capturam as compreensões de mundo e de classe dos mais pobres.
Andando pela nossa comunidade, o Tururu, é fácil perceber in loco e até mesmo em postagens nas redes sociais como as pessoas absorvem o discurso do dominador. Dizer, por exemplo, que o Bolsa Família se configura como “bolsa esmola” é desacreditar um programa social que possui fortes dados comprovando sua eficácia na redução da pobreza e na permanência de crianças e adolescentes na escola. “É necessário, em todos os casos, convencer os oprimidos de que a dominação é boa para eles também, ou que o sofrimento se dá por conta própria” (Jessé Souza, O pobre de direita).
Defender os interesses dos Estados Unidos, do governo de Israel, e tomar como seus os discursos misóginos, racistas e individualistas de Bolsonaro e de sua tropa tornaram-se, por muitas vezes e infelizmente, parte do cotidiano de muitos moradores do Tururu e de outras comunidades do Brasil. Dizem alguns que é Deus que fala pela boca dessas pessoas, mas perguntamos constantemente: que Deus é esse que concorda com essas atrocidades? Atrocidades que, diversas vezes, são baseadas em argumentos frágeis disseminados pelos pobres de direita, que concordam com líderes sanguinários que querem, de todas as formas, oprimir ainda mais essas pessoas, mas que, devido a um processo constante de alienação, não percebem que caíram em uma arapuca.
Inclusive, inventaram um nome gourmet — fake news — para o que se propaga hoje como mentira deliberada, por meio de inúmeros posts que inundam as mídias sociais e adentram as casas das pessoas como se fossem verdades. Muitas dessas informações poderiam ser desmentidas com duas ou três pesquisas simples, revelando-se como descaradas leviandades. No tempo atual, em que temos gerações que mais leem, essas mesmas pessoas acabam se tornando, infelizmente, as mais alienadas. Romper com isso não é fácil, mas começa e se fortalece por meio de um processo formativo sequencial que precisa ocorrer nas favelas.
Há potencial para que isso aconteça. Em todas as comunidades existem organizações da sociedade civil e coletivos bastante comprometidos com a transformação das estruturas sociais que oprimem. O que falta, em muitos casos, é organização, planejamento, trabalho em rede e recursos — inclusive não apenas os financeiros. Ainda assim, diuturnamente, esses grupos permanecem firmes e atuantes, acreditando em um mundo melhor. No entanto, isso ainda é pouco se considerarmos a necessidade de um direcionamento mais sequencial e conjunto, que passa pela formação, pela comunicação e pela incidência política.

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