Comunicação comunitária na era dos algoritmos: reconstruindo vínculos para além das redes sociais
Por Coletivo Força Tururu
Vivemos um tempo em que grande parte da comunicação pública está concentrada nas plataformas digitais. Redes sociais, aplicativos de mensagens e mecanismos de busca passaram a mediar o acesso à informação, determinando, por meio de algoritmos, o que vemos, o que lemos e até mesmo quais debates ganham visibilidade. Embora essas ferramentas tenham ampliado as possibilidades de comunicação, elas também criaram novas barreiras para organizações populares, movimentos sociais e coletivos comunitários que defendem direitos humanos e buscam mobilizar seus territórios. Se não ficamos atentos e atentas, o trabalho de base será bastante atingido com tudo isso.
Estudos apontam que os algoritmos das plataformas digitais priorizam conteúdos capazes de gerar maior engajamento, como curtidas, compartilhamentos e comentários, em detrimento de informações de interesse público. Esse modelo favorece conteúdos sensacionalistas e polarizadores, reduzindo o alcance orgânico de iniciativas comunitárias que tratam de temas como participação popular, justiça social e direitos humanos. Além disso, pesquisas do Reuters Institute mostram que, embora a internet seja uma das principais fontes de informação da população, cresce o número de pessoas que evitam consumir notícias nas redes devido ao excesso de informações, à desinformação e ao cansaço provocado pelas plataformas.
Diante desse cenário, torna-se cada vez mais necessário recuperar formas de comunicação territorializadas, capazes de estabelecer vínculos diretos com a população. No Coletivo Força Tururu, essa perspectiva já faz parte da prática cotidiana. A comunicação acontece muito além da internet: por meio da produção e colagem de lambe-lambes, da construção de zines, da realização de cineclubes, das conversas "boca a boca" e das anuncicletas que percorrem as ruas da comunidade levando informações e mobilizando moradores. É o que chamamos de comunicação off-line.
Essas estratégias possuem uma característica fundamental: elas dialogam com as pessoas no espaço onde vivem. Diferentemente das redes sociais, em que o conteúdo depende da lógica dos algoritmos para alcançar o público, a comunicação comunitária acontece no território, ocupa os muros, as ruas, as praças e os espaços de convivência. Ela fortalece relações de confiança, amplia o debate público e permite que a informação circule mesmo entre pessoas que possuem pouco acesso à internet ou que simplesmente não acompanham as redes sociais.
Um dos tantos exemplos que podem ser trazidos ocorreu durante o último processo eleitoral. O coletivo produziu aproximadamente 500 cartas abordando temas como democracia, participação popular e a importância do voto consciente. As cartas foram distribuídas diretamente nas caixas de correio das residências da comunidade. A experiência demonstrou que muitas pessoas que não haviam acessado os conteúdos publicados nas redes sociais tiveram contato com essas reflexões por meio da comunicação impressa. Trata-se de uma ferramenta simples, de baixo custo, mas extremamente eficiente para ampliar o alcance das mensagens e fortalecer o diálogo com a população.
Outras ferramentas igualmente importantes podem ser retomadas e adaptadas à realidade atual. Blogs comunitários, rádios comunitárias, jornais de bairro, podcasts produzidos por organizações locais, murais informativos, cartas abertas, jornais murais e sistemas de comunicação sonora, como spots, são exemplos de instrumentos que ajudam a descentralizar a circulação da informação e fortalecer processos coletivos.
Abaixo, alguns links de trabalhos desenvolvidos pelo Coletivo Força Tururu nesse sentido:
- https://www.instagram.com/coletivo_tururu/reel/DXocDcSgHay/
- https://www.instagram.com/coletivo_tururu/reel/DUaYESygLQq/
- https://www.instagram.com/coletivo_tururu/reel/DTPtIk_AJZL/
- https://www.instagram.com/coletivo_tururu/reel/DFm0aNYqIBX/
Um dos exemplos que sempre foi um sonho a ser concretizado do Coletivo Força Tururu é a instalação de uma caixa de som comunitária fixa em um ponto estratégico do território. A proposta é utilizar esse equipamento como um canal permanente para divulgar informes, campanhas, posicionamentos e convites para mobilizações, funcionando de maneira semelhante às antigas rádios comunitárias ou aos carros de som, mas com caráter contínuo e voltado exclusivamente ao interesse coletivo.
Essa estratégia pode ser decisiva diante de problemas concretos enfrentados pela comunidade. Imagine, por exemplo, uma situação recorrente de falta de abastecimento de água. O primeiro passo seria compreender o problema, coletar informações junto aos moradores e identificar suas causas. Paralelamente às medidas institucionais, como envio de ofícios aos órgãos responsáveis, articulação com gestores públicos e incidência política, seria fundamental construir um processo de mobilização popular.
A comunicação comunitária desempenha papel central nesse processo. A produção de banners com mensagens de impacto, instalados em pontos estratégicos da comunidade, pode despertar curiosidade, estimular conversas e chamar a atenção para o problema. A divulgação por meio da caixa de som comunitária, das anuncicletas, dos lambe-lambes e das conversas presenciais amplia ainda mais o alcance da informação e fortalece o sentimento de pertencimento em torno da pauta. Somente depois desse processo de sensibilização coletiva, outras ferramentas, como vídeos para redes sociais, abaixo-assinados, reuniões públicas e ações de incidência política, tendem a alcançar resultados mais consistentes.
A comunicação territorializada, portanto, não substitui a comunicação digital. Pelo contrário, ambas devem atuar de maneira complementar. Enquanto a internet amplia o alcance das informações e conecta diferentes territórios, a comunicação presencial fortalece vínculos, cria confiança e estimula a participação social. Em um contexto em que as plataformas digitais controlam cada vez mais a circulação das informações, recuperar formas tradicionais de comunicação representa também uma estratégia de fortalecimento da democracia.
Essa reflexão também dialoga diretamente com os processos eleitorais. Candidaturas comprometidas com transformações estruturais da sociedade, especialmente aquelas vinculadas às pautas dos direitos humanos e da participação popular, frequentemente enfrentam dificuldades para competir com campanhas baseadas em grandes investimentos financeiros ou em práticas clientelistas. Nessa realidade, a comunicação comunitária torna-se uma ferramenta importante para apresentar outras possibilidades de representação política.
Entretanto, essa presença não pode acontecer apenas durante o período eleitoral. A construção de confiança exige permanência no território. A comunidade reconhece quando uma candidatura ou um projeto político aparece somente em época de eleição e desaparece logo em seguida. Por isso, é fundamental construir agendas permanentes de diálogo com os territórios, participar das atividades comunitárias, ouvir as demandas da população e estabelecer relações contínuas com organizações locais.
Outro caminho estratégico consiste em fortalecer parcerias entre mandatos, candidaturas comprometidas com a democracia, coletivos periféricos, organizações da sociedade civil e iniciativas comunitárias já consolidadas nos territórios. Essas instituições acumulam experiência, legitimidade e capacidade de mobilização construída ao longo dos anos. Quando articuladas a processos de comunicação bem estruturados, tornam-se capazes de ampliar a visibilidade das pautas coletivas, fortalecer a participação popular e demonstrar que existem alternativas às formas tradicionais de fazer política.
Mais do que disputar espaço nos algoritmos, trata-se de reconstruir espaços de encontro entre as pessoas. Afinal, comunidades organizadas não se fortalecem apenas pelas telas dos celulares, mas principalmente pelas relações construídas nas ruas, nas praças, nas escolas e nos diversos espaços coletivos onde a comunicação volta a cumprir sua função mais importante: aproximar pessoas para transformar a realidade.


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